en-Guerreira, não mais .

12/08/2021

E depois de 4 anos, desde o último post , senti necessidade de escrever mais, e aqui nos encontramos . - - chamam lhe "blog".


Um mix de partilha, desabafo e dicas   .



Despeço-me assim me das armaduras da guerreira que carreguei durante os últimos anos.




Depois de um tempo sem interação digital, retornei há uns dias e fui entrando aos poucos nas várias mensagens que tinham entrado ao longo desse tempo... mensagens essas em total vulnerabilidade. 

Desabafos, muitos desabafos por no geral sempre se sentirem inspiradas com a nossa presença no digital e por aquilo que transmitimos. 

"Guerreira" foi a palavra mais comum em todas essas mensagens ... mas não só de agora... penso que nos últimos anos foi realmente aquilo que mais ouvi.

Essas partilhas tinham em comum que sempre me tinham visto com a Guerreira, mas que agora a viver um dia a dia "semelhante " ao nosso, nos tiravam o chapéu...a maioria mulheres com redes de apoio e que mesmo assim está obviamente a ser um enorme desafio.

Sim, é verdade que o nosso dia a dia não altera muito estando em confinamento

(tirando os eventos/aulas/ worshops presenciais )

Sim, sou mãe solteira a tempo inteiro

Sim, pago sozinha todas as nossas despesas

Sim, criei o meu próprio trabalho

Sim, trato da minha contabilidade e gestão financeira

Sim,  faço as nossas refeições, cuido e limpo da casa, trato da roupas

Sim,  trato de fazer a lista, ir às compras, arrumar, preparar, cozinhar, pôr e tirar a mesa, lavar, secar , arrumar a loiça... etc

Sim, vocês sabem que é uma lista sem fim

Sim, aqui não há com quem dividir tarefas ( a Noá começa a perceber a importância em ajudar e vai contribuindo nos dias sim na maneira dela)

Sim, tudo isso enquanto cuido e crio de forma independente de um ser humano.

Sim, num dia que tem de existir tempo para me nutrir, cuidar da limpeza e manutenção de um lar, alimentação e ainda trabalhar o suficiente para pelo menos cobrir as nossas despesas.

Esse é um ponto que considero interessante. O meu trabalho nesta fase ainda não tem como objectivo me enriquecer, nos enriquecer. 

Chegará a hora certamente, mas com todas estas responsabilidades em cima apenas de mim, tenho de aceitar que vou ser menos produtiva a nível profissional.

 O meu foco até este momento é conseguir pagar as nossas despesas mensais.A riqueza interna já a temos, a externa haveremos de conquistar sem qualquer dúvida.

Sim, porque já sei o que é viver sem dinheiro e apesar de honrar essa experiência é algo que não quero voltar a passar, que venha a abundância a todos os níveis pois quando somos abundantes, transbordamos.



Este é assim o momento em que começo a querer largar a armadura da guerreira .

Serviu durante vários anos, foi me "necessária" durante muito tempo, mas estou a buscar formas de arranjar outras estruturas, de poder cada vez mais delegar funções, buscar uma estrutura de educação para a Noá que não passe apenas por mim, começo a largar as vestes que me pesavam e deixaram de servir.


Ser essa "guerreira" durante tantos anos com tudo literalmente às costas trouxe me sem dúvida muitas conquistas pessoais, e transformações que nem poderia sonhar... Mas com essa "guerreira" vieram também várias proteções e escudos, muito cansaço acumulado a todos os níveis e até uma mudança corporal enorme. 

O corpo não alterou nem na gravidez, nem no pós parto, mas sim passado um ano quando adoptei a vida nómada.


Um corpo que era leve e fluído até na gravidez, tornou se denso e pesado.


Ser mãe solteira, ser independente financeiramente, trabalhar com o que se ama e cuidar sozinha de uma criança é possível sim, mas mói.

Acredito que tudo isto apenas foi possível graças ao yoga, a esse caminho de vir cá dentro ver e sentir essa força vital, clareza, sessões de pranayama, yoga nidra que eram autênticas salvações em dias de desafios profundos.

O yoga salva me todos os dias, mas foi no primeiro ano de vida da Noá que foi absolutamente essencial.

Salvou-me a mim e a ela... mostrava me todos os dias a luz que não acreditava mais ter, mostrava me todos os dias as forças que estavam dentro de mim que acreditava não ter mais..



E sempre que vem a questão:
Como consegues dar conta de tudo?

E a resposta é simples: não dou e aceito isso.

Posso dar o meu melhor, mas não tenho super poderes.




Se há dia que vamos tratar das compras, organizar e fazer as refeições para o dia e quem sabe para o seguinte, não é um dia em que limpo a casa, cuido da roupa , trato da pilha de loiça sem fim e se a Noá estiver num dia mais complicado talvez até nem consiga trabalhar nem uma hora. 

Fui aprendendo que não consigo controlar o meu dia e é assim que as coisas têm fluindo por marés mais baixas e altas da vida.. nesta imperfeição natural de chegar uns dias a umas coisas e outros a outras.


É importante ouvir e respeitar cada fase .



Quem já me segue há mais tempo sabe que parei de fazer massagens há um ano e meio, e deu uma pausa nas aulas de yoga desde outubro.

Em relação ás massagens:

 Senti que não era mais hora de ser a terapeuta, mas sim a cliente.

Estava cansada demais para nutrir o outro dessa forma e ao mesmo tempo tomar conta da Noá... desde massagens na praia, ao domicílio...por mais que ela colaborasse dentro do possível...era uma criança e houve realmente terapias muitoo desafiantes, perdi diversos clientes por ela chorar a querer o meu colo ou querer mamar quando tinha dois anos...com os três vieram outros e tantos desafios...

Enfim, senti que estava na hora de ser eu a deitar me numa marquesa, de ser cliente da massagista, de ser eu acolhida e nutrida.


E as aulas de yoga? 

Parei em Outubro para me focar noutros projectos profissionais, e nesse momento senti que também eu precisava de ser guiada e parar de estar sempre a guiar, a cuidar, de estar no controlo...e me deixar levar , de voltar realmente a ser apenas aluna.


Decidi então começar o meu primeiro dia solar numa consulta de MTC com a Dr.Tâmara Castelo, e lá fomos, começar o meu aniversário a fazer uma das coisas que mais confusão me faz...ser espetadinha por agulhas! 

Bem, a sensação de estar deitada numa marquesa aquecida, num consultório silencioso e harmonioso, enquanto apenas respirava e a acupuntura fazia a sua magia..a Dr.Tâmara ficou com a Noá na parte de fora...e digo-vos que foi o melhor presente de aniversário que eu me poderia ter proporcionado.




Este afastamento das redes faz parte da minha manutenção física, mental e espiritual.

Apesar de sentir uma enormeee gratidão a cada dia pela comunidade incrível que criamos nos últimos anos, por poder transmitir a minha missão, e poder viver apartir dela...mas por vezes o zoom out e o silêncio digital ( já que em casa silêncio só quando a Noá está em sono profundo) é absolutamente necessário.


Além de todas as tarefas domésticas, do cuidar e criar de um ser humano, de tudo o que envolve o meu trabalho (seja criação de conteúdo digital, gravação de meditações, aulas de yoga, receitas, coleções e parcerias) as mensagens que chegam por todo o lado são cada vez mais, seja pelo instagram, whatsapp ou e-mail e a verdade é que não estava minimamente preparada para isto e ainda tento a cada dia aprender a lidar.

No instagram são centenas as mensagens que chegam por dia e que mesmo dedicando uma parte do tempo a responder é impossível chegar a todos, no whatsapp tenho ainda umas boas dezenas por responder, assim como no e mail.
( sim, estão ainda e-mails de há um ano atrás por responder).

Há um ano que tenho uma assistente virtual a trabalhar comigo e que me ajuda a dar resposta aos e-mails mas há questões que só podem passar por mim e que merecem o seu tempo e presença.

Por isso se és uma dessas pessoas que ainda não recebeu uma reposta não te venho pedir desculpa, mas venho sim agradecer-te, agradecer-te por estares aí desse lado , agradecer-te  por tirares uns minutos do teu dia a acompanhar o meu projecto, agradecer-te por contribuires para o crescimento deste projecto e ainda agradecer-te por escreveres me sobre o teu processo, ou a pedir aconselhamento do que quer que seja.



Não estás sozinha.

Se és uma mãe que está a sentir-se sobrecarregada com tudo isto, não estás sozinha.

Mesmo que pareça impossível (acredita que sei bem o que é aparentemente impossível) 

Vou-te pedir que repitas e cumpras da tua forma 4 frases: 

- Apesar de todos os dias dar o meu melhor, eu sou humana. Eu vou conhecer e aceitar mais os meus limites e julgar-me menos.

-Não tenho medo/vergonha de pedir ajuda e se for necessário vou fazê-lo. Por mim, pelas minhas crias.

- Eu vou respirar de uma forma consciente e profunda sempre que me lembrar, mas principalmente sempre que sentir que a tampa vai saltar com alguém em casa.

-Comprometo-me a tirar todos os dias pelo menos 20 minutos para mim sozinha.

(seja ao acordar antes de todos ou depois de todos irem dormir)

Eu já tentei de tudo, ficar a trabalhar até ás cinco, seis da manhã ou ás vezes fazer directa por não ter conseguido fazer nada durante o dia mas cheguei á conclusão que isso me desgasta em triplo e o nível de paciência para lidar com tudo no dia seguinte é praticamente nulo.

Foram muitos meses e anos a fazê-lo e hoje percebo que prefiro ir dormir no mesmo horário que ela mas acordar antes do sol nascer.

Lembra-te que esta fase irá passar, esta fase é apenas isso, uma fase.

Mas vamos tirar o melhor partido dela!

As minhas sugestões:

Parar 3x por dia para respirar FUNDO (sugestão: ao acordar, depois de almoço, antes de deitar)
Práticas de respiração
Práticas de meditação
Práticas de yoga nidra
Práticas de asanas
Práticas de mantras
Práticas de meditações activas
Dança
Correr parada em casa ( se estás sozinha e não podes sair e deixar a cria como eu)
Ver o nascer do sol
Ver o pôr do sol
Tomar um banho gelado
Contemplar as estrelas
Fazer uma auto massagem

Comer alimentos de verdade

Experimenta aquilo que te faz sentir melhor no momento em que estás e usufrui destes benefícios.


Eu sou sem dúvida muitoo melhor pessoa, mulher, mãe, professora, criadora quando tiro estes momentos para entrar dentro, para soltar tudo o que estava estagnado e atrair prana cheio de vitalidade para todo o meu corpo, mente e espírito.

Mas mesmo com todas estas práticas, não te esqueças que todos temos os nossos limites e não tenhas medo de pedir ajuda 🤍


P.s. há dois dias recebi um cabaz que encomendei de produtores locais e biológico- e fiquei profundamente emocionada ao ver o nosso frigorífico repleto de abundância e de pura vida.

 É mais caro? É, sem dúvida. Mas eu acredito que nada na vida é caro. Tudo são prioridades. 

 Eu já tive 10 euros na conta e preferi comprar 1 kg de Maçãs e um molho de couves biológicas do que o dobro em comida não biológica.


Porquê? Prefiro sem dúvida alguma comer menos e dar menos quantidade à Noá mas comer em maior qualidade, além de não ingerir produtos ( que não deveriam chamar comida) com venenos nem dar veneno para a minha filha.


Prefiro apoiar uma economia justa, prefiro apoiar agricultores que se preocupam e trabalham com respeito pela terra e pelos seus ciclos. Ao apoiar também a agricultura biológica estou a investir na nossa saúde e na saúde da terra que irá dar comida para gerações futuras.
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Vamos aproveitar este momento de confinamento para ter escolhas mais conscientes sobre onde investimos o nosso dinheiro? Sim, Investir. Não gastar.
Cada cêntimo que sai é para nosso investimento ou do planeta.
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E sim, vamos aceitar que com filhos vamos produzir menos. É inevitável. 

E está tudo bem, tudo passará.




Até já ,


Maria 


*ficamos off mas os registros estão sempre on. aqui deixamos alguns momentos das últimas semanas